Em novembro de 2023, a Itália tornou-se o primeiro país do mundo a proibir a produção, a venda e a importação de carne cultivada (produzida em laboratório a partir de células animais, sem o abate de animais) por meio da Lei nº 172/2023. A medida foi apresentada como uma forma de proteger o patrimônio gastronômico italiano, os agricultores tradicionais e a saúde pública. Este artigo examina criticamente esse enquadramento e argumenta, com base em evidências científicas, ambientais, econômicas e bioéticas, que a carne cultivada constitui uma alternativa comprovadamente superior à pecuária convencional. Sustenta-se que a proibição italiana não representa um ato corajoso de soberania nacional, mas sim uma regressão politicamente motivada, que privilegia a identidade simbólica em detrimento da evidência empírica. Com base em avaliações de ciclo de vida, dados epidemiológicos, projeções de sistemas alimentares e análise regulatória, demonstra-se que a carne cultivada é uma tecnologia capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 96%, diminuir o uso da terra em 99%, eliminar o uso rotineiro de antibióticos e ampliar a segurança alimentar global. Por fim, argumenta-se que a premissa central da lei — segundo a qual a carne cultivada representaria uma ameaça à cultura italiana — confunde a gastronomia autêntica com o lobby do agronegócio. Assim, defende-se que a verdadeira soberania alimentar não se expressa na obrigação de preservar o passado, mas na liberdade de inovar em favor de um futuro sustentável.
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