A habitação é conceitualizada como um espaço fechado e protegido, do ponto de vista de sua porosidade socioespacial. A moradia é definida como um espaço fechado onde a esfera privada domina, protegida do sofrimento da convivência; é um espaço concebido isolado do mundo exterior. No entanto, a moradia é porosa em relação ao seu entorno, oferecendo uma série de limiares. Essa tensão entre a moradia e o domínio público é regulada por espaços intermediários que garantem a gradação entre o interior e o exterior, entre o privado e o público. No entanto, nossa pesquisa, realizada em um local de habitação social em Bruxelas, nos força a questionar essa qualidade socioespacial de porosidade e a ausência dela associada à habitação. No caso do Peterbos em Anderlecht, é a própria constituição concreta da moradia que desafia a possível porosidade social da moradia, através de falhas inerentes ao edifício (canos deteriorados, vazamentos de água, barulhos, odores, ratos e larvas...). Por outro lado, os espaços intermediários não facilitam o movimento do interior para o exterior: esse movimento é impedido (ou seja, escadas imundas e halls de entrada), bloqueado (elevadores defeituosos) ou revertido (o mundo exterior invadindo, ou seja, quando intrusos se convidam a entrar nos edifícios). Diante desses diferentes problemas, a pesquisa tenta analisar as táticas e práticas adotadas pelos habitantes para reparar falhas e lidar com os problemas cotidianos que enfrentam diariamente.
Carlier et al. (Quarta-feira) estudaram essa questão.